Ao longe um som torna-se insistente até que dele tomo consciência: O despertador.

(Mas ainda não são seis da manhã)

Que posso eu congeminar a esta hora?

De véspera deixara o equipamento preparado. A mochila está pronta!

(Mochila? Que fazes? Que pensas?)

Entre roupa enfiada à pressa, pequeno-almoço tragado num ápice e um café da máquina enquanto ajusto o gorro, eis-me pronta.

(Mas o que arranca esta alma do aconchego da cama e do conforto de casa?)

Escadas feitas numa corrida silenciosa, chego à garagem e entro no carro.

A estrada corre veloz. A música alta e o vidro aberto. O frio é cortante.

Ainda está escuro.

Chegada ao meu lugar preferido desligo o carro e saio. Respiro.

Pego nas coisas que vou precisar e encaminho-me para a margem. No horizonte começa a despontar a primeira réstia de luz que vai iluminando e contorna de cor a serra.

(Bom dia!)

Este lugar é “meu”. Aprendi a conhecê-lo. Respeito-o e sinto o seu palpitar e sei descortinar o etéreo e sublime pulsar do amanhecer.

(Esta é a “minha” Ria de Aveiro nas margens da vila da Torreira, um lugar singular, especial e de uma beleza indescritível)

As tonalidades lentamente vão mudando. Há um silêncio que enche, a natureza que desperta. São sussurros, é um agitar da folhagem e das aves que saltitam… é o chilrear da vida.

 

 

E a maré é tão indiferente quando sei o que captar neste cais de magia. Se há um dia que a Ria parece um autêntico espelho, em que o olhar petrifica e encanta, outros há que dos lodaçais algo sublime paira e é intangível.

 

 

E porque lhe reconheço a capacidade mutante, tantas vezes permaneço por ali, à espera de um momento único e diferente, como sempre.

E na diferença dos dias e das marés, da luz e das névoas, do céu limpo ou coberto de nuvens, a minha alma vai renovando e o meu olhar refrescando na essência do que me rodeia…

 

 

Saindo desta clareira e a uns metros daqui, outro pedacinho d’encanto preenche-me.

(…)

Um outro dia, um outro amanhecer…

(Sigam-me, é um instantinho)

Com o tripé a balançar na mão, vou escolhendo onde vou ficar. Pouso a mochila. Brrr. Está frio, mas o que vejo é uma beleza à qual apetece sucumbir.

 

Pensam que a Ria é só assim? Enganam-se… ela é muito, muito mais.

A vida destas margens vai desde o amanhecer, vagueia ao longo do dia e condensa o todo de um dia de beleza no ocaso.

Concordam em seguir-me em mais umas palavras e imagens?